Saúde Mental Global

Dilemas e desafios das políticas de Saúde Mental Global

Edital Universal CNPq processo nº443137/2014-5
Coordenador: Francisco Ortega
Objetivos

O movimento de saúde mental global (Global Mental Health Movement – GMHM) tem atingido grande destaque prático e conceitual ao argumentar que a saúde mental tem sido majoritariamente negligenciada nas agendas globais de saúde, e destacaram estimativas epidemiológicas mostrando a extensão da carga dos transtornos mentais nas famílias, comunidades, nações e sistemas econômicos internacionais. É apontada a existência de uma grande “lacuna de tratamento” (treatment gap) entre a necessidade e a disponibilidade de serviços de saúde mental, e ressaltam os custos individuais e sociais da doença mental não diagnosticada e não tratada, além da demanda por intervenções eficazes e acessíveis, especialmente em países de renda baixa e média. A ascensão do GMHM tem, no entanto, conferido um novo significado a controvérsias antigas sobre a universalidade ou especificidade cultural de transtornos mentais e seus sintomas. Os críticos acusam o movimento de exportar um modelo ocidental de doença e tratamento, prejudicando o papel dos praticantes de terapêuticas tradicionais, negligenciando a variabilidade cultural na compreensão e nas respostas ao sofrimento mental, além de medicalizar a angústia e ignorar as causas sociais e econômicas reais do sofrimento mental em países de baixa e média renda. Embora este debate seja em grande parte acadêmico, ele se sobrepõe a outro que é mais significativo para os profissionais de Saúde Mental Global (Global Mental Health – GMH): se o cuidado assistencial de saúde deve adotar intervenções escalonáveis (scalable) que possam ser reproduzidas em grande escala por meio da adoção de pacotes padronizados que podem ser “implantados” em muitas regiões diferentes, ou adotar intervenções que devem ser desenvolvidas localmente em função da situação de regiões específicas. Essas controvérsias dificultam a construção de modelos robustos, multi-disciplinares de saúde mental e sua tradução em tratamentos eficazes em contextos locais.

Diante desse debate internacional, identifica-se a necessidade de avaliar como essa agenda de pesquisas e intervenções tem repercutido no Brasil ou, no sentido contrário, pode estar sendo influenciada pela produção acadêmica e por políticas de saúde brasileiras. A classificação como um país de média renda é uma justificativa insuficiente para aplicar, ao caso brasileiro, os argumentos subsidiários e as estratégias escalonadas de ampliação do acesso à saúde mental experimentados, principalmente, em países africanos e asiáticos, que carecem de sistemas nacionais de saúde estruturados. Em contrapartida, a agenda brasileira apresenta-se parcialmente fechada a esse movimento global, evitando alguns de seus vieses, mas também afastando-se de avanços que uma participação crítica nestas discussões pode oferecer.

Partidários da saúde mental global têm, cada vez mais, assumido como questão central o estudo de aspectos culturais de intervenções em larga escala em saúde mental. Negar o acesso ao diagnóstico e tratamento dos transtornos fere os direitos humanos das pessoas com sofrimento mental, porém reduzir a intervenção à replicação de protocolos, em especial, à oferta de medicamentos, é também reproduzir uma abordagem negligente, danosa e sem evidências dos transtornos mentais. Há, nesse sentido, o interesse em estudos que avaliem tanto de forma objetiva como subjetiva e qualitativa essas intervenções em diferentes contextos, envolvendo, por exemplo, lideranças, grupos e agentes comunitários, e adaptações de protocolos a características específicas locais. No Brasil, ainda que exista uma produção importante de estudos qualitativos em saúde mental, como ainda há poucas intervenções terapêuticas padronizadas e de larga escala, não se abriu terreno para pesquisas que avaliem as interfaces culturais de medidas deste tipo. É necessário levar em consideração determinantes sociais e estruturais das doenças mentais, sublinhando a utilidade de ferramentas diagnósticas e protocolos, ao mesmo tempo, derivados localmente e padronizados internacionalmente, possibilitando assim o desenvolvimento de estratégias de tratamentos para intervenções especialmente em zonas carentes de recursos em saúde mental. Essas questões têm potencial para permear e enriquecer as reflexões e propostas em torno da ampliação dos cuidados públicos em saúde mental no Brasil e podem, na direção inversa, mediar a abertura do debate internacional às contribuições singulares da experiência.

Subprojetos

Taciana Lemos Barbosa
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social – Universidade Estadual do Amazonas (UEA) – Dinter UEA- UERJ

Título: Desafios na construção de uma Rede de Atenção Psicossocial no município de Manaus (AM): A percepção de gestores e profissionais.

Objetivos: O estudo se propõe a contextualizar o desenvolvimento de uma rede de atenção psicossocial com base nas políticas públicas de saúde mental, na vivência dos atores envolvidos, e analisar os principais desafios para sua implantação e operacionalização no município de Manaus a partir da utilização de fontes secundárias e de uma pesquisa de campo.

Tatiana Regina de Andrade Soares
Mestranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).

Título: Saúde Mental Global: perspectivas para o cenário brasileiro

Objetivos: Mapear as publicações de Saúde Mental Global no Brasil a partir de revisão integrativa de literatura e identificar tais desdobramentos no contexto brasileiro. Descrever as repercussões e impasses do movimento que se apresentam diante das especificidades de sua população, serviços, diretrizes e políticas públicas de saúde mental vigentes. Analisar os princípios norteadores de ação da Saúde Mental Global e sua viabilidade na ampliação do acesso aos serviços da rede de saúde mental brasileira.

Angela Pereira Figueiredo
Mestranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).

Título: “Nada sobre nós, sem nós”: Experiências em recovery na saúde mental do Brasil atual.

Objetivos: A pesquisa tem como objetivo principal a problematização acerca das particularidades inerentes à nossa realidade em saúde mental relacionadas ao tema do recovery, em especial àquelas específicas às formas de protagonismo e de empoderamento dos usuários e familiares. Para tanto, propõe-se a revisão de algumas experiências condizentes ao tema do recovery no contexto brasileiro de saúde mental, tanto por meio da literatura já publicada no país, quanto por meio de estudos de caso ilustrativos do tema, tomando como principal objeto de estudo os grupos de ajuda e suporte mútuos realizados no município do Rio de Janeiro-RJ.

Alice Menezes
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ).

Titulo: Narrativa, sofrimento e cuidado na Atenção Primária à Saúde

Objetivos: O foco de pesquisa gira em torno de narrativas locais sobre o sofrimento emocional e o cuidado ao sofrimento no âmbito da Atenção Primária à Saúde. A partir da análise crítica de relatos relativos à experiência de doença na interseção entre a vida no território e a busca por auxílio médico, busca-se entender a percepção que pacientes e profissionais de saúde brasileiros têm a respeito do sofrimento, a fim de discutir o impacto de modos de compreensão locais para a estruturação do cuidado que, frequentemente, baseia-se em diretrizes internacionais.

Sonia Maria Lemos
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social – Universidade Estadual do Amazonas (UEA) – Dinter UEA- UERJ

Título: A inserção da saúde mental na atenção primaria: um estudo qualitativo das práticas de profissionais na cidade de Manaus/AM

Objetivos: A pesquisa tem como objetivo geral, investigar a inserção da Saúde Mental na Atenção Primária a partir da análise das práticas de profissionais que atuam neste nível de atenção na cidade de Manaus, a fim de subsidiar a discussão da operacionalização das políticas públicas que envolvem a temática. Para tanto serão mapeadas as práticas desenvolvidas pelos profissionais que atuam na Estratégia de Saúde da Família nos 5 Distritos de Saúde, incluindo uma unidade básica fluvial que atende às comunidades ribeirinhas próximas da cidade de Manaus.

Celina Ragoni
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS-UERJ)

Título: Mental Health Gap e o uso de psicofarmacos da atencao primaria no Brasil: Do global ao local

Objetivos: A pesquisa tem como foco principal a analise do uso de psicofarmacos entre pacientes com transtornos mentais comuns no contexto da atenção primaria. A avaliação da proporção de indivíduos em uso de medicação e sua adequação, a presença de abordagens não medicamentosas concomitantes e o perfil cultural e socioeconômico dos usuários servirão como base para contextualizar e problematizar o “mental health gap” no cenário local, dialogando com a literatura em saúde mental global.

Manuela Rodrigues Müller
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS-UERJ)

Titulo: Pensando Cultura no contexto do Matriciamento

Objetivos: O Matriciamento, ou cuidado colaborativo, adotado no Brasil, e defendido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), permite a detecção precoce dos transtornos mentais, tratamento e continuidade de cuidado na comunidade. Incorporar um olhar sobre a cultura pode ser útil para lidar com os desafios suscitados nos encontros clínicos. Pretende-se, então, observar se e como as configurações culturais específicas dos serviços e de suas comunidades são reconhecidos como impasses e/ou potencialidades ao planejamento terapêutico negociado entre profissionais de saúde da família e seus matriciadores.

Carlos Estellita-Lins
Pesquisador do Laboratório de Informação Científica e Tecnológica em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (LICTS/Icict – Fiocruz) – Pos-doutorando IMS-UERJ

Título: Illness experience and narrative scope within leprosy affected patients

Objetivos: This research assesses leprosy impact on patients’ self-image, self-perception and peer/social relationship [clinical morbidity], through narratives concerning illness experience and health behavior in Rio de Janeiro, Brasil. All subjects being under treatment at the Souza Araújo Outpatient Clinic, Oswaldo Cruz Institute (IOC, Fiocruz). MINI – McGill Illness Narrative Interview, a semi-structured qualitative interview protocol is the main research tool along with depression and common mental disorder assessing tools. Illness narratives can provide tools to improve health service provision to affected patients and improve understanding of the complex health behavior involved. The pilot interview stresses urgent need of leprosy diagnostic training to health professionals in Brasil, (in order to balance public and private practice or highly specialized centers and ESF/GPs). The referral process also demands improvement. Widespread public awareness remains a priority in endemic areas. A patient focused approach with evidence based criteria is also very important. Folk models of infection and transmission are complex and merge along with western therapeutics standards and manifold cultural strata involved.

Leandro David Wenceslau
Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS-UERJ)

Titulo:Saúde Mental Global e Atenção Primária à Saúde no Brasil: um estudo de caso sobre os cuidados às pessoas com sintomas depressivos na Estratégia Saúde da Família

Objetivos: Esta pesquisa tem por objetivo descrever e analisar estratégias de cuidado às pessoas com sintomas depressivos na atenção primária à saúde no Brasil. São estudadas as experiências, discursos e práticas de profissionais e usuários no processo de elaboração e implementação dessas estratégias em equipes da Estratégia Saúde da Família da cidade do Rio de Janeiro. Estas questões são abordadas segundo os referenciais teóricos e agenda de pesquisa do movimento Global Mental Health, ocupando-se, em especial, com: a influência dos determinantes sociais na experiência e no cuidado do sofrimento mental; o modelamento do acesso e dos itinerários de cuidado de pessoas com sofrimento mental por aspectos culturais; o manejo in loco por profissionais das linguagens da psiquiatria baseada em evidências, dos aspectos psicossociais do adoecimento mental e os saberes tradicionais; e o papel dos diversos atores envolvidos, profissionais da assistência, gestores e acadêmicos neste processo.