Pandemia de AIDS

Kenneth Camargo Jr

Desde o começo da pandemia de HIV/aids quase 78 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV e cerca de 39 milhões morreram de aids. Em todo o mundo, estima-se que cerca de 35 milhões de pessoas viviam com aids ao final de2013. A África Sub-Saariana é a região mais severamente afetada do mundo, com quase 1 em cada 20 adultos vivendo com HIV, representando cerca de 71% das pessoas vivendo com HIV em todo mundo (OMS).

Apesar do discurso otimista da Unaids, afirmando que a epidemia de aids será extinta nos próximos 15 anos (UNAIDS), os números acima e a realidade política encontrada em várias partes do mundo nos levam a considerar criticamente tais afirmativas.

Desde a detecção dos primeiros casos de aids nos EUA até o desenvolvimento de medicamentos eficazes no tratamento da doença assistiu-se em todo mundo a uma impressionante mobilização pela prevenção da infecção e cuidado das pessoas com HIV/aids, forjando um novo tipo de ativismo que teve profundo impacto no desenho da resposta à epidemia em todo o mundo, e especialmente no Brasil.

O efeito paradoxal do desenvolvimento de respostas biomédicas eficazes, mais recrutamento de parte do ativismo como linha auxiliar de prestação de serviços ao Estado esvaziaram o momentum político da mobilização anti-aids, o que se agravou ainda mais com a crise econômica global de 2008. A retração de tradicionais financiadores das atividades de organizações da sociedade civil, incluindo agências internacionais, agravou ainda mais o quadro, levando à situação presente de escassa mobilização e concentração da “ajuda internacional” nas mãos de poucas agências, em sua maioria privadas, criando um importante déficit democrático na possibilidade de negociação de iniciativas de políticas públicas, especialmente com países que dependem fortemente de recursos externos para a sua implementação, como é o caso justamente da parte do mundo mais fortemente afetada pela pandemia.

A ênfase unilateral no componente biomédico da resposta tem levado ao abandono de ações que se mostraram efetivas no passado, à invisibilização de populações vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e trabalhadoras do sexo, no Brasil, e à desconsideração de importantes questões de natureza política, social, cultural e econômica, como o custo da aquisição de medicamentos, a carência de recursos humanos qualificados para atuar na área de saúde, a necessidade do enfrentamento contínuo da discriminação e do preconceito, ou mesmo da adoção de práticas de sexo seguro como forma eficaz de prevenção.

É necessário retomar uma forte mobilização social, re-politizando a resposta à epidemia, para que possamos de fato fazer frente aos desafios que se colocam no enfrentamento desse grave problema de saúde pública global.

Organização Mudial de Saúde, http://www.who.int/gho/hiv/en/, consultado em 14 de setembro de 2015.

Unaids , http://www.unaids.org/en/resources/presscentre/pressreleaseandstatementarchive/2015/july/

20150714_PR_MDG6report , consultado em 14 de setembro de 2015.