Cientistas descobrem novo “órgão” que pode explicar como câncer se espalha

UOL, São Paulo 27/03/2018 

O novo órgão está presente abaixo da camada superior da pele (na imagem) e envolve diversos órgãos do corpo. Foto reprodução UOL / Getty Images

O novo órgão está presente abaixo da camada superior da pele (na imagem) e envolve diversos órgãos do corpo. Foto reprodução UOL / Getty Images

Um tecido cheio de canais repletos de fluidos e que envolve diversos órgãos foi identificado por cientistas, que estão considerando a descoberta como um novo órgão do corpo humano — e um dos maiores de nossa anatomia. Batizado de “interstício”, ele seria a chave para entender como alguns tipos de câncer se espalham rapidamente.

Um estudo publicado nesta terça-feira (27) na revista Scientific Reports (https://www.nature.com/articles/s41598-018-23062-6) mostra uma rede de canais interconectados e cheios de fluidos nos tecidos conjuntivos — que

preenchem os espaços entre os diferentes tecidos do corpo. O novo órgão está presente abaixo da superfície da pele e interliga diversas partes do corpo, como o trato digestivo, pulmões e sistema urinário. Também envolve músculos e vasos sanguíneos. Os espaços interconectados são sustentados por feixes de colágeno e elastina Anteriormente, acreditava-se que essas camadas de tecido eram densas, como uma “parede” de colágeno — proteína de sustentação da pele. Mas a nova descoberta revela que, em vez de uma “parede”, tal tecido pode ser visto como uma rede de “estradas abertas e cheias de líquido”, disse Neil Theise, professor de

patologia da Universidade de Nova York e um dos autores do estudo, em divulgação do estudo.

Apesar de ser considerado um novo órgão pelos autores do estudo, esse status só se torna oficial após um consenso entre os cientistas. A presença desses espaços com fluido ainda precisa ser confirmada por outros grupos de pesquisadores, afirmou Theise ao site Live Science.

“Estradas de fluídos” podem explicar como câncer se espalha

Ainda que não seja oficialmente um novo órgão, a descoberta da estrutura de canais traz novas perspectivas para a compreensão de mecanismos relacionados a uma série de doenças. Por exemplo, os canais ligando diversas partes do corpo como se fossem estradas poderiam explicar por que o câncer que invade tecidos conjuntivos torna-se muito mais propenso a se espalhar. De acordo com o estudo, os feixes de proteína vistos no espaço intersticial provavelmente geram corrente elétrica à medida que se dobram com os movimentos dos órgãos e músculos. Isso explicaria o mecanismo por trás de técnicas como a acupuntura. “Esta descoberta tem potencial para impulsionar avanços na medicina, incluindo a possibilidade de que a amostragem direta do fluido intersticial possa se tornar uma poderosa ferramenta de diagnóstico”, diz o autor do estudo.

O estudo indica que o tecido conjuntivo não é denso, mas cheio de canais com fluidos (essas bolsas em lilás). Foto reprodução UOL/ Jill Gregory

O estudo indica que o tecido conjuntivo não é denso, mas cheio de canais com fluidos (essas bolsas em lilás). Foto reprodução UOL/ Jill Gregory

Por que só agora?

De acordo com os pesquisadores, esses espaços não tinham sido notados até então porque eram destruídos ao serem colocados nas lâminas microscópicas utilizadas para estudar células do corpo. A estrutura de canais foi observada agora graças ao uso de novas técnicas de análise por imagem. A pesquisa teve início quando Petros Benias e David Carr-Lock, do centro médico Mount Sinai Beth Israel, utilizaram endomicroscopia confocal para buscar sinais de metástase no canal biliar de pacientes com câncer. Essa técnica oferece uma visão microscópica dos tecidos vivos. Os médicos então se depararam com uma estrutura com cavidades que não

combinava com nenhuma anatomia humana previamente conhecida. Para tentar identificar a estrutura, pediram auxílio de Neil Theise. Empregando as técnicas tradicionais de biópsia, as estruturas estranhamente não apareciam. Os cientistas concluíram que o processo de fixação nas lâminas de laboratório, usado para deixar detalhes das células mais visíveis, drena os fluidos existentes nesses canais.

“As substâncias de fixação faziam com que um tipo de tecido cheio de fluido parecesse sólido em lâminas de biópsia por décadas. Nossos resultados corrigem isso e expandem a anatomia da maioria dos tecidos”, diz Theise.

Onde está quase metade do líquido do corpo

Os cientistas já sabiam que metade do líquido existente no corpo reside dentro das células, e cerca de um sétimo está no coração, vasos sanguíneos, gânglios linfáticos e vasos linfáticos. O fluido remanescente era chamado de “intersticial”, entre tecidos e células. O estudo atual é o primeiro a definir o interstício como um órgão específico, onde está todo o restante do líquido corpóreo. O fluido que circula na rede de canais do tecido conjuntivo é a linfa, substância formada por glóbulos brancos e vital para a defesa do organismo. A linfa é drenada do sistema linfático, uma rede complexa de vasos e pequenas estruturas.

FONTE